
Foto: João José Menescal
Crônica
Minha alma canta
Depois das serras, vislumbra-se o imenso oceano anunciando a proximidade do destino final. Fortaleza mostra-se verde vista do alto, diferente do que se vê nas ruas. São os terreiros e quintais se revelando aos olhos da escritora
Apertem os cintos, vamos chegar. O avião já passou pelas serras e fez uma curva no rumo das praias. Avistar o oceano a se aproximar é uma emoção, passageiros mergulham os olhos na paisagem, veem as areias, coqueirais, a vegetação litorânea com mandacarus e palmas espinhentas. Logo estamos ao longo do mar, vemos as dunas no Iguape, a praia que parece infinita e é infinitamente linda, o rio Catú que se abre num Maceió, cavalos que cruzam a água rasa e amarelada, o povoado da Prainha com seu Japão e as velas alvas das jangadas lado a lado na areia, depois a usina de vento em Porto das Dunas onde fica o parque aquático com brinquedos alucinantes, afinal o rio Pacoti, margeado por uma verdura densa. E surge Fortaleza, vista do Futuro. Abordada pela face leste, a cidade logo revela seu perfil de edifícios próximos à costa.
A chegar-se pelo sul, Fortaleza começa mais interiorana. Depois que passamos o maciço de Baturité, a cidade surge adiante, primeiro os conjuntos dos arrabaldes, aos quais se segue uma imensa mancha com telhados de barro entremeados pelo verde de copas e copas, um amplo campo repleto de casas e de árvores. Fortaleza é verde, pensam os passageiros. Estranho, pois quando circulamos na urbes a impressão é de não haver vegetação, e realmente, quase não há, nem nas ruas vicinais, nem no centro, nem nos bairros mais perto da costa. Como Fortaleza, vista do alto, pode ser tão verde? São os terreiros dos bairros, os bucólicos quintais das casas, desde os limiares da cidade até Fátima, onde ainda vivem remanescentes pés de jambo, velhos sapotizeiros, ou árvores plantadas mais recentemente, como os brasileirinhos, e agora, os nins indianos. E também uma enormidade de casas com piscinas azuis. Mas naquele momento a cidade se transforma num mar de cimento e ladrilhos. Os prédios muito altos, com uma linguagem local de revestimentos, predomínio de algumas cores, e mistura de retas e curvas, mostrando uma visível intenção de ousadia formal, criam uma sensação de juventude. Fortaleza dá a impressão de uma cidade nova, como acontece em Tóquio, com prédios surpreendentes e inesperados, audaciosos em sua concepção arquitetônica, ou em Chicago, considerada o mais belo perfil urbano do mundo, onde tudo é novo, pois a cidade foi devastada por um incêndio no final do século 19, e arquitetos de renome se ofereceram para projetar a nova cidade, dentro das últimas concepções, ou seja, toda em arranha-céus. Fortaleza passou por outro tipo de incêndio e reconstrução, mas seu perfil tem esse mesmo ar inovador e arrojado, que vem quiçá da fortitude, do temperamento valente do cearense, do nosso coração paladino.
Aquela Fortaleza branquinha, de ruas largas, arejada, coqueirais por todo lado, areias nuas, bangalôs, casarões, imensos quintais, terrenos baldios, a Fortaleza quase sem prédios, bucólica e suave, que vi da janela do avião quando a deixei, em 1956, não está presente no rosto da cidade atual, há um rompimento com a tradição da engenharia e arquitetura locais, com as regras de uso do espaço e de ambientação antigos. Várias épocas com suas atitudes marcam o traço da cidade. Já os edifícios de construção recente se inovam e tomam outros formatos, mais despojados, em tons mais terrosos. A cidade cresce para o lado leste, como aconteceu no Rio de Janeiro com a Barra da Tijuca, surge um novo modo de viver, uma mentalidade diferente, distante das recordações interioranas, que se reflete no retrato da cidade. E onde cabe, novamente, a vegetação, mas apenas como uma paisagem para as fachadas e janelas, pois as ruas, que convidam ao passeio sob renques de árvores, são temidas pela população, que só se transporta em automotores. Os prédios tentam oferecer aos moradores a sensação de casa, e lançam suas varandinhas com churrasqueiras. Surgem condomínios, cada vez mais os moradores abandonam as ruas, a vida a pé quase não existe mais, é o princípio de Alphaville, viver dentro de pequenas cidades muradas e seguras. Os remediados e ricos vão adiante, deixando um rastro pesado de favelas e pobreza. Ainda há muitos terrenos, ainda há muito que vai mudar nesta cidade que mudou tanto em tão pouco tempo. Vista do alto, Fortaleza é bela, posta diante do mar e cercada de natureza plana, banhada pela mais leve e alvadia luz que merece a admiração de poetas, seresteiros, tinta aguada a matizar algodão, uma natureza pintada de cores suavíssimas e meigas, jamais vistas em outra cidade. Ou, como diziam os sertanejos, uma luz subdorada.
ANA MIRANDA é autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras. E-mail: amliteratura@hotmail.com. Escreve quinzenalmente para o Vida & Arte.