Posted by: João José Menescal | 24, Junho, 2008

No espaço inaudito do amor

o

Au dessus des vieux volcans,
Glisse des ailes sous les tapis du vent,
Voyage, voyage,
Eternellement.

De nuages en marécages,
De vent d’Espagne en pluie d’équateur,
Voyage, voyage,
Vole dans les hauteurs
Au dessus des capitales,
Des idées fatales,
Regarde l’océan…

Voyage, voyage
Plus loin que la nuit et le jour,
Voyage
Dans l’espace inouï de l’amour.
Voyage, voyage
Sur l’eau sacrée d’un fleuve indien,

Voyage
Et jamais ne revient.*

(Desireless, 1987)

o

o

*Acima dos velhos vulcões
Deslizam asas sob o tapete do vento
Viaje, viaje,
Eternamente.

Das nuvens aos pântanos
Do vento da Espanha à chuva do equador
Viaje, viaje,
Voe até as alturas
Acima das capitais,
Das idéias fatais,
Olhe o oceano…

Viaje, viaje,
Mais longe que a noite e o dia
Viaje,
No espaço inaudito do amor
Viaje, viaje,
Sobre a água sagrada de um rio indiano

Viaje,
E jamais retorne.

Posted by: João José Menescal | 10, Junho, 2008

Da beleza plástica da palavra

Ultimamente faltava tempo para tudo. A idéia de não postar nada há alguns bons dias o incomodava. Pra não deixar passar, resolveu, no arrepio da pele, pelo menos anunciar que estava vivo. O estopim foi a música do Fausto Nilo, cuja beleza plástica sempre o comovia. Lá existe o sal da terra distante, e a certeza de que, em breve, se Deus o permitir, bastará um par de asas para transportá-lo além-mar.


Portugal, acordei de um sonho antigo
Meu avô me ensinou teu pão de trigo
Fez uma canção de amigo
Com as estrelas e o varal.

Portugal, no outeiro da prainha
Meu amor se banhou na fontainha
Com a lua dos amantes
Pendurada no beiral.

Portugal, se o meu mar não existisse
O teu mar talvez fosse um fado triste
Muito além do azul que existe
No teu sonho, Portugal.

Posted by: João José Menescal | 9, Maio, 2008

Las luces siempre encienden en el alma

Pra ele, esta era a que bastava. Alguns chamam “borboletas no estômago”. No entanto, muito mais apropriado seria “luzes que incendeiam a alma”. Enfim, se consultasse o coração, ali estariam todas as respostas.

Te vi
Fumabas unos chinos en Madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
No hacías otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.

(…)

Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.

Posted by: João José Menescal | 6, Maio, 2008

Por causa do biquinho, né?

Direto do Le Monde Brasil, Paris pelos olhinhos e mãozinhas:

CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Paris para crianças

Por Daniel Cariello

— Tem passarinho em Paris?

— Tem muito.

— Eles falam francês?

— Eu acho que já percebi um sotaque.

— E eles voam perto da Torre Eiffel?

— Voam. E perto da Notre Dame também.

— Mas as gárgulas não os comem?

— E você nessa idade sabe lá o que é uma gárgula?

— Vi no Google.

— Então você devia saber que elas estão petrificadas.

— Deve ser cansativo ficar petrificado.

— Elas nem sentem. São obras de arte, como a Mona Lisa.

— A Mona Lisa é aquele quadro de uma mulher?

— Isso mesmo. Ele está em Paris. Tem filas para vê-lo.

— Por quê?

— Porque é o mais famoso do mundo.

— Quando eu crescer eu quero ser famosa e quero que tenha fila pra me ver, mas não quero ser um quadro não.

— E quer ser o quê?

— Presidente da França.

— Pra fazer o quê?

— Pra comer escargot.

— Você sabe o que é escargot?

— Não.

— É um caramujo.

— Eca.

— Os franceses comem.

— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

— O biquinho é por causa do sotaque.

— Eu acho bonito o biquinho.

— Eu também.

— Só não quero mais comer escargot.

— Você pode comer pain au chocolat.

— O que é isso?

— É um pão com chocolate.

— Deve ser bom.

— É sim.

— Se eu morasse em Paris eu comeria pão com chocolate o tempo todo.

— Não seria legal pra sua saúde.

— Aí eu tomaria vinho depois. Eu vi na TV que é bom pro coração.

— …

— Lá tem praia?

— Tem o rio Sena.

— É bonito?

— É. Só não dá pra tomar banho.

— Meu irmão já tinha me falado que francês não toma banho.

— Não é verdade. Todo mundo que eu conheço na França toma banho.

— E você conhece todo mundo na França?

— Não.

— Eu queria viajar pra Paris.

— E o que você iria visitar primeiro?

— A EuroDisney!

— Tem o Parque Asterix também.

— Quem é Asterix?

— É um desenho francês.

— Ele é amigo do Mickey?

— Acho que não.

— Eu prefiro o Mickey.

— Mas o Mickey não fala francês.

— Mas o Pato Donald fala.

— Como você sabe?

— Por causa do biquinho, né?

Posted by: João José Menescal | 1, Maio, 2008

Se eu cantar, não chore não, é só poesia!

Toda vez que chega maio, os ventos e a luz do sol tem sabor das músicas de Lô Borges. E isso acontece desde 1986. É dessa época a lembrança do menino que, no banco traseiro do carro, ouvia o K7 cujas músicas tinham um inédito sabor de viagem. Viagem no sentido de pé-na-estrada, ou melhor, rodas. Era o som que tocava e embalava a contagem de bois e casas que cruzavam velozes os limites das janelas do antigo Del Rey. De Fortaleza para Quixeramobim eram 220 quilômetros sertão adentro. É divertido lembrar como interpretava as letras (ao pé, como fazem as crianças) conjugando-as com o que via, como a trilha sonora de uma película.

Não importava o tempo, se seco ou chuvoso, aquela caixinha magnética sempre tinha uma letra que cabia. O céu azul, o calor da tarde, a aridez da caatinga e o comboio de formações cumuliformes que acompanhavam o movimento do carro, vez ou outra se escondendo, no horizonte, por trás dos serrotes que beiram a estrada a partir de Quixadá, eram os protagonistas de “Nuvem Cigana”:

Se você quiser eu danço com você no pó da estrada
Pó, poeira, ventania
Se você soltar o pé na estrada, pó, poeira
Eu danço com você o que você dançar

Se você quiser eu danço com você
Meu nome é nuvem, pó, poeira, movimento
O meu nome é nuvem
Ventania, flor de vento, madrugada
Eu danço com você o que você dançar

Se a viagem era feita no cedinho da manhã, o frescor do orvalho, o cheiro do capim-limão e a brandura dourada dos primeiros raios de sol juntava-se aos trilhos que, vez por outra, reluziam às margens da Estrada do Algodão. Era a vez de “Trem Azul”:

Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem as vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar

Você pega o trem azul, o Sol na cabeça
O Sol pega o trem azul, você na cabeça
Um sol na cabeça

De repente podia vir um casamento de viúva. Com sol e chuva o bafo da terra quente subia e era o alvoroço: Fechem os vidros! Menino, bota esse pano no nariz! Cuidado com a crise de garganta! Logo mais a água engrossava, e ele se divertia com o espichar das poças sob as rodas que fazia balançar o matinho da beira do acostamento. Pensava que seria divertido dirigir no aguaceiro. No toca-fitas, tocava “Tudo o Que Você Queria Ser”:

Com sol e chuva você sonhava
Que ía ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo o que você queria ser

Ah! sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada

Chegado ao destino, gostava da noite. Sempre foi de olhar o céu e o do sertão é mais que belo. Como a cidade era pequena, as luzes de vapor de sódio não eram capazes de sobrepor o brilho cristalino das estrelas. Essa é a lembrança que mais guarda da fazenda do avô: deitado no chão do terreiro, junto ao pai, tentando identificar as constelações. Vez por outra passavam pontos piscantes. Anos depois, estudando as cartas de rota (ERC - Enroute Charts) do espaço aéreo superior, descobriu que quase em cima daquela casa passava a aerovia UW-33. Nos ouvidos, a lembrança de “Via Láctea”:

Vendaval, carrossel
Segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar

E o grão de tão pequeno
Ser tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa que sonhou…

Aventuras, cicatrizes
Segue o mundo a rolar
Diamantes do universo
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

Mas a música que achava sua chamava-se “Vento de Maio”. No início do mês era o seu aniversário. Lá pelo dia 30 de abril já começava a ficar todo contente e se entregava àquela expectativa típica das crianças. Na boca, a vontade de misturar o pedaço de bolo com as borbulhas do refrigerante. Nos ouvidos, a expectativa da ligação da avó, que era sempre a primeira a telefonar. No coração, a ansiedade de ser acordado, de susto, com os pais cantando os parabéns. Vento de Maio tinha o poder mágico de antecipar todas aquelas sensações:

Nisso eu escuto no rádio do carro a nossa canção
Sol girassol e meus olhos abertos pra outra emoção
E quase que eu me esqueci que o tempo não pára
Nem vai esperar

Vento de maio rainha dos raios de sol
Vá no teu pique estrela cadente até nunca mais
Não te maltrates nem tentes voltar o que não tem mais vez
Nem lembro teu nome nem sei
Estrela qualquer lá no fundo do mar

Vento de maio rainha dos raios de sol

Chegou de repente o fim da viagem
Agora já não dá mais pra voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique
Assim meu sapato coberto de barro
Apenas pra não parar nem voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique

Para escrever este post, teve que laçar no fundo do coração lembranças que jaziam silentes, mas nunca esquecidas. Ouviu novamente as canções que agora o acompanham pra todo canto na “mudernidade” dos iPods. No entanto, elas terão, para sempre, o sabor daquele K7 já mastigado que nem sabe mais por onde anda. Deu o ponto final ao mesmo tempo em que sentiu a insistência das gotinhas salgadas no canto dos olhos. E, inesperadamente, compreendeu o que o Lô cantava em “Um Girassol da Cor dos Seus Cabelos”. Sentiu, naquele instante e pela primeira vez, toda a beleza da música que, quando menino, achava muito triste. As crianças tem dificuldade em entender que também se chora de alegria.

Vento solar, estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar, estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?

Se eu cantar não chore não
É só poesia

Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

Posted by: João José Menescal | 30, Abril, 2008

Coração é o quintal da pessoa

A chuva embala a madrugada insone. O olhar estará, pelas próximas boas horas, dividido ao pé da janela entreaberta: um pouco na beleza caótica da água que se precipita e outro no relógio. Das horas saberia que, daqui a pouco, será o momento de desperta-la para mais uma dose do medicamento. A mãe, no quarto ao lado, padece com suspeita de dengue. Hoje faltou ao trabalho pois era indispensável conduzi-la, pelo braço, de lá pra cá. Afinal, as idas ao hospital foram várias.

A despeito da aflição (a doença é séria e deve ser tratada com cuidado), havia espaço para sentir-se grato. Pelo menos agora poderia retribuir um pouco. Ainda eram vívidas as impressões das incontáveis noites da infância, quando a mãe velava zelosa, ao pé da cama e noite adentro, a doença do filho arteiro.

Hoje o amor que sentia deu recados e fez perguntas. Quem dela cuidará quando for emprestar suas madrugadas às aerovias?

Saboroso é o amor, fruta boa
Coração é o quintal da pessoa
É gostoso o nosso amor
Renovado é o nosso amor
Saboroso é o amor madurado de carinho

É pequeno o nosso amor, tão diário
É imenso o nosso amor, não eterno
É brinquedo o nosso amor, é mistério
Coisa séria mais feliz dessa vida

Posted by: João José Menescal | 26, Abril, 2008

Tirando onda com o Varig 279

Li há pouco no Fórum Contato Radar. Serve para mostrar que, madrugada adentro, tem boas histórias rolando nas aerovias deste Brasil. São causos assim que tornam a nossa aviação uma fonte preciosa de conversas de hangar. Afinal, o bom aviador tem que ser, além de tudo, um cara apaixonado pelo que faz e genuinamente bem humorado. Divirtam-se!

Certa vez, em meados dos anos 90, um B-732 da Varig estava indo do nordeste para o sudeste. Na época não tinha RVSM e os níveis eram separados por 2000 ft. Quem tava indo para o Sudeste tinha disponíveis os FLs 280/310/350/390 ao passo que quem ia para o Nordeste/Europa tinha os FLs 290/330/370/410. Pois bem. O Varig (não lembro o número do vôo, vamos chama-lo de 279) tava no FL 310 querendo subir pro 350. O Centro Recife operava não radar e havia um A-340 da Ibéria na aerovia em sentido contrário, no FL 330, que impedia a subida do Varig. O controlador teria que esperar ambos reportarem uma mesma posição para poder autoriza-lo a subir, mas o cmte do Varig já se mostrava extremamente irritado por isto. Disse que o Ibéria ainda estava longe dele e que tinha condição de subir rapidamente para o FL 350. Uma hora o controlador perdeu a paciência e disse secamente “Varig 279 mantenha o FL 310 e aguarde o cruzamento com o Ibéria para continuar a sua subida.” Algum tempo depois o Ibéria fez seu reporte de posição e cruzou com o Varig. O ACC então falou para o Varig:

ACC – Varig 279 tráfego superado. Autorizado subir para o FL 350, reporte atingindo.
RG879- Ciente subindo para o FL 350, e o Varig 279 informa que o avião da Ibéria estava totalmente fora de rota. Passou bem a minha esquerda.
ACC – Ciente Varig 279

Nisto ouve-se uma voz com forte sotaque em portunhol no rádio

IBE- Bárig Dos siete nueve, ecuelinha

Para quem não sabe, a Evaer tinha uma freqüência de coordenação em VHF, e o pessoal da pioneira costumava bater papo nesta freqüência, que era chamada de freqüência da “escolinha” Acho que era 130.3 ou 133.0 algo assim. Claro que todo mundo que tava voando, passou para a escuta da freqüência para ouvir o que o espanhol queria dizer.

IBE- Bárig, Dos Siete Nueve buenas noches, aqui es Ibéria Siete Uno Dos
VRG- Prossiga Ibéria.
IBE- Diga-me companero… Cual és su tipo de avión?
VRG- É um Boeing 737, porque?
IBE- Uno Siete Três Siete…. Bueno… Pero, és uno Brega? O es uno siete três siete trecientos?
VRG- Ë um brega sim., porque? Qual é o problema?
IBE- Mire companero… Nosotros estamos acá, em uno Airbus três cuatro cero equpado com três inerciales, equipados com dos GPS… Usted está volando uno brega e quieres me decir que JO ESTOY VOLANDO FORA DE MI RUTA???
VRG (Já bastante alterado) – TÁ VOANDO SIM!!! VC TÁ FORA DA SUA ROTA SIM!

Nisso entra uma outra voz em português e fala:

Ô 279.. se liga cara.. Tão tirando onda com a tua cara…

Não tinha Ibéria nenhum falando. Até parece que algum espanhol ia conhecer gírias como “Brega” que só tem aqui no Brasil, ou saber que a havia uma freqüência batizada de “escolinha” Foi algum gozador (possivelmente da própria varig, ou ex-varig) que lançou a isca e o cara caiu, garantindo muita risada pra todos que estavam lá, uma vez que um monte de gente começou a tirar onda no rádio…

Posted by: João José Menescal | 15, Abril, 2008

Passos livres sobre o manto de algum rei

Um dia ainda vou fazer uma canção de amor
Deliciosa, provocante e proibida
As mães vão gritar horrorizadas
E sempre vai aparecer algum profeta antevendo o fim do mundo na malícia dos meus versos.

(…)

Os perdidos vão me fazer coro
E, na hora imprópria, vou dizer teu nome junto a um palavrão!

Posted by: João José Menescal | 23, Março, 2008

Nas trincheiras da periferia o que explodia era o amor

Repulsar qualquer forma de segregação vale a pena. Neste sentido, vide o excelente trabalho do Eleilson Leite que, nas páginas do Le Monde Diplomatique Brasil, têm brilhado em divulgar o espírito da Agenda Cultural da Periferia.

De tão oportuno, transcrevo abaixo o seu último olhar sobre o tema, escrito por ocasião de uma reportagem veiculada no Jornal da Tarde, de São Paulo, cuja jornalista enxergou a chance da pauta denunciosa numa autêntica manifestação cultural da juventude das quebradas.

XXXXXX
CULTURA PERIFÉRICA
XXXXXX
AS FESTAS DELES E AS NOSSAS
Num texto preconceituoso, jornal de São Paulo “denuncia” agito na periferia e revela: para parte da elite, papel dos pobres é trabalhar pesado. Duas festas são, no feriado, opção para quem quer celebrar direito de todos ao ócio, à cultura, à criação e aos prazeres da mente e do corpo

Eleilson Leite

Na sexta-feira passada, dia 14 de março, o Jornal da Tarde, de São Paulo, estampou, em manchete de primeira página: “Funk do tráfico invade escola”. A matéria abordava a realização de uma festa de rua no Parque Primavera, periferia da Zona Sul de São Paulo. Na foto, jovens, quase todos negros, divertiam-se ao som do funk estilo carioca, conhecido como pancadão. Na página interna, o título da matéria dava mais detalhes: “Garotada dança, bebe, usa drogas e transa na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental)”. De acordo com o relato da jornalista Marici Capitelli, que freqüentou o baile de rua por duas sextas-feiras, passando-se por funkeira, a escola — EMEF Isabel Vieira Ferreira — está instalada na esquina onde se realiza a balada.

Seu portão fica aberto e a galera entra no local para, na penumbra da quadra, usar drogas e cutir “namoros apimentados”. Tudo isso patrocinado, segundo a matéria, pelos grupos de traficantes organizados das favelas das imediações. A notícia repercutiu. O diretor da escola foi pressionado, autoridades se mexeram e providências foram tomadas. O próprio prefeito encarregou- se de botar cadeado no portão da EMEF e a PM prometeu acabar com a festa, mantendo um policiamento ostensivo na região, sobretudo no dia e horário da balada.

Fiquei muito perplexo com o tratamento dado ao fato pelo jornal. Passei os últimos dias refletindo sobre o tema, buscando entender por que esse tipo de abordagem. Sim, estamos cansados de saber que os veículos da grande imprensa são a voz das elites endinheiradas e constituem-se como o 4º Poder. Mas nem tudo é absoluto, e a imprensa tem exercido, também, um importante papel para a manutenção da democracia. Às vezes, coloca-se ao lado da maioria, principalmente quando há um esforço dos jornalistas para exercer sua profissão com dignidade e buscar a verdade dos fatos.

Certamente, a repórter foi ao Jardim Primavera com a melhor das intenções e fez uma matéria que pretende tera virtude da denúncia (o tráfico, os jovens envolvidos com bebidas e drogas, uma escola mal-cuidada etc). Mas o enfoque sensacionalista e a conseqüente reação das autoridades só acabaram por piorar as coisas. Os três mil jovens, que tinham na festa às sextas-feiras sua única oportunidade de diversão, perderam a balada. A escola que, aberta à comunidade, cumpria muitas outras funções além de servir de refúgio para a rapaziada na madrugada, acabou sendo fechada. O funk carioca, que vem ganhando espaço na periferia de São Paulo, novamente foi tratado com preconceito e desprezo. E o crime organizado local ficará sob tensão constante com o policiamento, acendendo um pavio que pode causar uma grande explosão. Resultado: revolta, ódio, violência e frustração.

Se a própria rua, que serve de pista para seus embalos de sexta-feira à noite, lhes é retirada, o que vão fazer? E se esses jovens viessem “invadir” a balada do Mackenzie?

A questão, caro leitor, é que festa de pobre na periferia é tratada como caso de polícia. Quando o público é de classe média e de bairros centrais, o tratamento é outro. Vou contar um caso que evidencia isso. Tem uma balada que rola toda sexta-feira à noite (às vezes de dia também) nas imediações da Universidade Mackenzie, no centro da cidade. Reúne centenas de estudantes. O pessoal ocupa duas esquinas, obstrui ruas e incomoda os vizinhos. A trilha sonora é variada: rock, MPB, samba, axé e, até mesmo, o Pancadão, dependo do estado de embriaguez. Os jovens universitários consomem muita bebida alcoólica e usam drogas à vontade. Na hora de fazer sexo, o chamego rola dentro de seus carros de vidros escuros, estacionados no local. A polícia quando vai lá, segundo testemunhas, é para retirar do recinto sujeitos maltrapilhos, pouco condizentes com o perfil social dos freqüentadores. E na Periferia? Ah, polícia na quebrada não tem meio termo. Chega para acabar com a alegria da rapaziada que se diverte na rua.

Os jovens universitários do Mackenzie estão se divertindo. E têm mais é que curtir o fim de uma semana de estudo e, para muitos deles, de trabalho. Esse direito nunca lhes foi negado e devem continuar exercendo-o, sem desrespeitar a coletividade. Mas estou do lado dos que foram historicamente desfavorecidos, e que se amontoaram nas bordas da cidade. Por que essas pessoas também não podem se divertir na rua? No Parque Primavera não existem equipamentos públicos de lazer, nem praças, como relata a própria reportagem do JT. Será que não resta outro destino ao povo preto e pobre da periferia, senão a condenação irremediável ao desencanto? Se a própria rua, que serve de pista para seus embalos de sexta-feira à noite, lhes é retirada, o que vão fazer? E se esses jovens viessem “invadir” a balada do Mackenzie? A rua é deles tanto quanto dos universitários. Será que a PM viria retirá-los, estando eles aos montes?

O dramaturgo e poeta alemão, Bertold Brecht, falava o seguinte: “Dizem violentas, as águas do rio, mas não dizem violentas, as margens que o comprimem”. Essa analogia do rio de margens comprimidas é perfeita para pensar o processo de amontoamento das pessoas nos fundões da periferia. Nesses mais de 500 anos de história do Brasil, a violência contra os pobres foi, muitas vezes, justificada pelo incômodo que a própria existência dessa gente causa aos ricos que sempre estiveram no poder. O Racionais MC’s em seu belíssimo DVD 1000 trutas, 1000 tretas, traz um documentário que mostra como os negros foram expurgados do centro e empurrados para a periferia, em São Paulo. No vídeo, Mano Brown lê um texto retirado de relatório assinado por Whashington Luiz, em 1919. O então secretário de Segurança, depois governador de São Paulo e presidente da República falava o seguinte, referindo-se aos negros e miscigenados que ficavam na Várzea do Carmo, atual Parque Dom Pedro:

A Festa Umoja vai agitar a Zona Sul, no sábado: exposições, dança, culinária, teatro, poesia e muita música. No domingo, rola o Samba na Ponte, no Socorro. É uma grande festa das rodas de samba de Sampa

“É aí que, protegida pelas depressões do terreno, pelas voltas do Tamanduateí, pelas arcadas das pontes, pela vegetação das moitas, pela ausência de iluminação, se reúne e dorme e se encachoa, à noite, à vasa da Cidade, numa promiscuidade composta de negros edemaciados pela embriaguez habitual, de uma mestiçagem viciosa, de restos inomináveis e vencidos de todas as nacionalidades, todos perigosos. É aí que se cometem atentados que a decência manda calar, é para aí que se atraem jovens estouvados e velhos concupiscentes para matar e roubar como nos dão notícia os canais judiciários, com grave dano à moral e para a segurança individual, não obstante a solicitude e a vigilância de nossa polícia. Era aí que quando a polícia fazia o expurgo da cidade, encontrava a mais farta colheita”.

Leiam as matérias no JT sobre o baile funk do Parque Primavera e comparem com o texto acima. Verão que as coisas não mudaram muito. A criminalização da pobreza está enraizada na sociedade brasileira. Senhores e senhoras jornalistas, editores, donos de jornal, autoridades policiais, judiciárias e administrativas, dêem a devida atenção à periferia. Percebam a complexidade da dinâmica social do subúrbio. Não atribuam ao tráfico tudo que rola nas quebradas para, com este argumento, justificar atos de repressão. Não façam da indevida utilização de uma escola motivo para fechá-la à comunidade. Deixem os jovens da periferia se divertir como podem os universitários do Mackenzie. Não tirem dos pobres o pouco que têm. Não desprezem o funk. Boa parte da elite já entendeu o rap. Tá na hora de sacar o pancadão. É música feita e apreciada pelo pessoal da favela. Só por isso, merece consideração. Não precisa gostar. Mas, por favor, vamos respeitar. Deixem a galera curtir sua balada no Parque Primavera e por toda a periferia.

E festa nas quebradas é o que não falta. Temos duas excelentes opções noticiadas na Agenda Cultural da Periferia para o final de semana prolongado da Páscoa. A Festa Umoja vai agitar a Zona Sul no sábado. O evento reúne exposições, dança, culinária, teatro, poesia e muita música. Além do grupo Umoja, vão se apresentar o DJ Maurício Alves, Band’ Doido e Fabiana Cozza, entre outras atrações. No domingo, rola o Samba na Ponte, lá na Ponte do Socorro, também na Zona Sul. É uma grande festa das rodas de samba de São Paulo. Terá o ritual de batismo no samba e contará com a presença de bambas de todas as partes. É animação e lazer garantidos. Paz, amor e liberdade. É isso que se quer na periferia. Parodiando o Moraes Moreira: “ Nas trincheiras da periferia, o que explodia era o amor…”

Serviço:

Festa Umoja
Sacolão das Artes – Av. Cândido José Xavier, 577 – Parque Santo Antonio
Dia 22 de março, sábado, a partir das 18h, Grátis
Contato: 5891 2564 / www.institutoumoja.blogspot.com

Samba da Ponte
Rua Eloi Chaves s/n, Socorro (ao lado da ponte do Socorro, sentido Santo Amaro)
Dia 23 de março, domingo a partir das 14h – Grátis
Contato: 8636-2209 e 7724-2159

Posted by: João José Menescal | 29, Fevereiro, 2008

Poesia em Congonhas

pessoa-em-congonhas.jpg

Ele nem sabia se o grande painel ainda estava por lá.

Mas o Pessoa, tão lindamente posto em tons de séphia, numa composição que remetia ao cheiro de gasolina de aviação e ao barulho dos grandes motores radiais, era a companhia certa do café expresso, bebericado quase com devoção, entre um vôo e outro.

Imaginava, talvez mais que ninguém, que os dizeres eram todos para ele. E isto lhe tocava o fundo da alma, como o lastro da âncora que repousa no ponto abissal de um mar profundo. Paradoxalmente, era como se tentasse, ou nutrisse uma pontinha de querer, mesmo que em vão, fincar raízes num pedaço de chão qualquer. Até se surpreendia, pois, não raro, sentia mesmo saudades daquilo. A saudade, com leivos de melancolia, de algo, que, na verdade, nunca soubera bem o que era: o dormir e o acordar sob o mesmo teto, todos dias e todas as noites.

Mas ao fim, e inevitavelmente, terminava por comungar com o poema (tão inusitado para o ambiente, mas, ao mesmo tempo, tão próprio, tão descaradamente óbvio e tão seu) de uma cumplicidade não declarada. E, no ponto e contraponto de idas e vindas, pousos, decolagens, diários de bordo, planos de vôo, rostos, malas, filas de check-in, xícaras de café, poeira das estrelas e, quem sabe, o pó de sua própria alma, compreendeu-se, inteiramente, ali:

Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os restos sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”

Fernando Pessoa

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