
Photo by Dominik Spuller (airliners.net)
“Quando me sinto triste em casa, muitas vezes pego um trem ou um ônibus e vou até o Aeroporto de Heathrow, onde, de uma plataforma de observação no Terminal 2 ou do andar mais alto do Renaissance Hotel, ao longo da pista norte, consolo-me com a visão do incessante pousar e decolar de aeronaves.
No difícil ano de 1859, logo após o processo de Fleurs du mal e do rompimento com sua amante Jeanne Duval, Baudelaire visitou a mãe na casa dela em Honfleur. Durante grande parte de sua estada de dois meses, ocupou uma cadeira junto ao cais, observando a chegada e a partida de embarcações. “Aqueles grandes e belos navios com seu aspecto sonhador e ocioso, não parece que eles nos sussurram em línguas mudas: Quando zarparemos para a felicidade?”.
Visto de um estacionamento ao lado da 09L/27R, como a pista norte é conhecida pelos pilotos, o Boeing 747 parece, de início, uma luzinha branca e brilhante, uma estrela que cai na direção da terra. Ele está no ar há doze horas. Decolou de Cingapura ao amanhecer. Sobrevoou a baía de Bengala, Déli, o deserto afegão e o mar Cáspio. Seguiu seu trajeto por cima da Romênia, da República Checa e do sul da Alemanha, antes de começar sua descida, tão suave que poucos passageiros teriam notado uma mudança no tom dos motores, acima das turbulentas águas marrom-acinzentadas ao largo da costa holandesa. Ele acompanhou o Rio Tamisa até sobrevoar Londres, voltou-se para o norte, perto de Hammersmith (onde os flapes começaram a baixar), girou sobre Uxbridge e acertou o curso acima de Slough. Da terra, a luz branca aos poucos ganha corpo como uma enorme massa de dois andares, com quatro motores suspensos como brincos debaixo de asas de um comprimento implausível.
Na chuva fina, nuvens de água formam um véu atrás do avião, que prossegue o seu grave avanço até o campo de pouso. Abaixo dele, estão os subúrbios de Slough. São três da tarde. Em casas com quintal, enchem-se chaleiras. Um televisor está ligado numa sala de estar, com o som mudo. Sombras verdes e vermelhas passeiam mudas pelas paredes. O dia-a-dia. E acima de Slough passa um avião que, havia algumas horas, estava sobrevoando o Mar Cáspio. Mar Cáspio – Slough: o avião como um símbolo de cosmopolitismo, trazendo dentro de si um resquício de todas as terras que atravessou, sua eterna mobilidade oferecendo um contrapeso imaginativo para sensações de estagnação e confinamento. Hoje de manhã, esse avião sobrevoou a península da Malásia, topônimo no qual subsistem os aromas de goiaba e do sândalo. E agora, alguns metros acima da terra que evitou tocar por tanto tempo, o avião parece imóvel, com o nariz elevado, dando a impressão de fazer uma pausa antes que suas dezesseis rodas traseiras entrem em contato com a pista, com uma rajada de fumaça que deixa evidentes sua velocidade e seu peso.
Numa pista paralela, um A340 levanta vôo com destino a Nova York e, acima da represa de Staines, recolhe os flaps e o trem de pouso, dos quais só precisará novamente quando da descida próximo às brancas casas de madeira de Long Beach, à distância de mais de cinco mil quilômetros e oito horas no mar e nuvens. Visíveis no nevoeiro através do calor dos turborreatores, outros aviões esperam para iniciar viagem. Suas caudas são uma confusão de cores em contraste com o horizonte cinzento, como velas de uma regata.
Ao longo da parte traseira de aço e vidro do Terminal 3, repousam quatro gigantes, cujas librés indicam procedência variada: Canadá, Brasil, Paquistão, Coréia. Por algumas horas, as pontas de suas asas ficarão a apenas metros de distância, até que cada par comece outra viagem em meio aos ventos estratoféricos. À medida que cada aeronave se volta para um portão, tem início uma dança coreografada. Caminhões deslizam por baixo de seu ventre, negras mangueiras de combustível são presas às suas asas, um corredor móvel curva a boca de borracha retangular sobre a fuselagem. As portas dos compartimentos de carga são abertas e descarregam caixas de carga de alumínio amassadas, talvez com frutas que apenas há alguns dias pendiam dos galhos de árvores tropicais, ou legumes que tinham raízes no solo de vales altos e silenciosos. Dois homens de macacão armam uma pequena escada junto a um motor e abrem sua carcaça para revelar um território intricado de fios e pequenos tubos de aço. Lençóis e travesseiros são baixados da frente de uma cabina. Passageiros desembarcam, para quem essa tarde inglesa comum terá uma coloração sobrenatural.
Em nenhum lugar, a sedução do aeroporto está mais concentrada que nas telas de televisão suspensas em fileiras nos tetos dos terminais, a anunciar a partida e chegada de vôos, e com uma peculiar ausência de constrangimento estético: as caixas plásticas e de formato desinteressante não fazem nada para disfarçar a carga emocional ou o fascínio imaginativo que inspiram. Tóquio, Amsterdã, Istambul, Varsóvia, Seattle, Rio. As telas portam toda a ressonância poética da última linha de Ulysses, de James Joyce: ao mesmo tempo um registro de onde o romance foi escrito e, não menos importante, um símbolo do espírito cosmopolita por trás de sua criação: “Triestre, Zurique, Paris.” As constantes chamadas das telas, algumas acompanhadas do pulsar impaciente de um cursor, sugerem com que facilidade nossa vida aparentemente enraizada poderia ser transformada, caso seguíssemos por um corredor e embarcássemos numa aeronave que em poucas horas nos deixaria num lugar do qual não teríamos nenhuma recordação e onde ninguém soubesse o nosso nome. Como é gostoso ter em mente, através da fissura de nossas oscilações de humor, às três da tarde, quando a lassidão e o desespero ameaçam, que sempre há um avião decolando para algum lugar, para o “Qualquer lugar! Qualquer lugar!” de Baudelaire: Triestre, Zurique, Paris.”
(do imperdível livro “A Arte de Viajar”, de Alain de Botton)

