
Acabei de descobrir. Com um certo atraso, é verdade. Mas consternei-me sobremaneira. A notícia é triste, porém deixa em mim mais um sabor de saudade gostosa.
O músico Henri Salvador faleceu em Paris no último dia 13 de fevereiro, quarta feira passada. Nascera no dia 18 de julho de 1917, na casinha simples de número 19, na Rue de La Liberté, em Cayenna, na Guiana Francesa. Seu pai, Clovis, tinha origem espanhola. Já sua mãe, Antonine Paterne, era filha de uma francesa com um índio caribenho. Isto explica o fato do pequeno Henri ter crescido num ambiente culturalmente rico e diversificado.
O velho Clovis tocava violino. “Não muito bem”, admitiu Salvador, que uma vez pediu ao pai para ensiná-lo os segredos do instrumento. A resposta veio com uma condição: se tirasse notas boas na escola, ganharia um violino e aprenderia a tocá-lo. Como sempre foi um aluno displicente, ficou só na promessa. Relembrava, com humor característico, que se o pai tivesse sido mais complacente, teria certamente se tornado um “virtuose”!
A perda do violino tornou-se, posteriormente, a descoberta do violão. Aprendeu a tocar sozinho o novo instrumento e, quando tinha 7 anos, a família mudou-se para Paris, onde ele descobriu os encantos musicais do velho continente.
Aos domingos, seus pais costumavam levá-lo para assistir às matinês no La Comédie ou no Cirque Médrano. Foi lá, num banquinho da platéia, que a contagiante gargalhada do menino Henri (sua marca registrada pra toda a vida) atraiu, pela primeira vez, a atenção do público. No Médrano, ele conheceu um palhaço chamado Rhum, que um dia convidou o divertido garoto para conhecer os bastidores do circo. Na ocasião, Rhum lhe disse: “Você sabe, é muito bom ouvir a sua risada ecoando ao redor do picadeiro. Sua gargalhada faz todo mundo rir! Portanto, a partir de agora, você pode vir assistir ao show todo domingo! E de graça!”. Daí, o menino acostumou-se com o ambiente das apresentações e, não demorou muito, já estava no palco participando dos números musicais. Com o tempo, veio o jazz, sua outra paixão. Daí, para a Bossa Nova, e para o mundo, foi um pulo!
Meu primeiro contato com seu som cativante deu-se pelas mãos da amigona Clarissa Tavares (é das mais queridas, sempre, por essas e outras coisas). Tão marcante foi a descoberta que eu ainda lembro daquela tarde chuvosa de 2004, depois do almoço. O disco era o “Chambre Avec Vue”, gravado em 2000. Foi paixão à primeira vista. Tinha suavidade, intensidade, ritmo e uma inconfundível voz aveludada, com incursões que fizeram estreita ligação com a música brasileira (ele foi um dos expoentes da Bossa Nova na Europa).
Depois deste encontro, Henri tornou-se trilha sonora constante. Foi ao som aconchegante de “Je Sais Que Tu Sais” que me atrevi, pela primeira vez, a trocar uns passos de dança com uma antiga namorada, depois de um jantar com amigos, feito por mim, numa noite fria de Pacoti. Quem me conhece e sabe que eu tô longe de ser um pé-de-valsa, entende o tamanho da superação que foi dançar (sem saber) na frente de todo mundo. Com efeito, aos nossos pés tombou uma garrafa de vinho. Por sinal, o melhor que bebíamos naquela noite. Nem por isso paramos. A música de Salvador faz isso com você.
“Le Fou de La Reine“, cantada em duo com Françoise Hardy, é a que marcou o fim de um relacionamento, naquele exato instante em que você abaixa as armas e percebe o óbvio: que, apesar do encantamento, da promessa de felicidade e de todas as coisas vividas e sonhadas, dele nada mais se pode esperar.
Já a lembrança das inúmeras tardes de domingo, quando em viagens vividas com amigos sempre queridos, na tentativa de torná-las menos nostálgicas, remete-me à letra alegre de “Il Fait Dimanche“. Afinal, com a retina impressionada de luz dourada, a boca cheia de gargalhada e o vento salgado da beira do mar, qualquer dia pode “fazer domingo”, daqueles bem felizes, desde os primeiros raios de sol que invadem os ninhos até a anunciação das estrelas.
Essas são as boas lembranças de Henri.
E pra aquecer o coração, encontrei no You Tube o clipe de “Chambre Avec Vue”, que, na verdade, eu nunca tinha visto. Emocionei-me, pois a beleza do vídeo é memorável, ainda mais com a música que me apresentou a figura e a sua obra, e mostrou tantos outros caminhos nessa brincadeira gostosa das descobertas musicais, que brinda nossa existência com o lúdico instrumental implacável à aridez do cotidiano. Além disso, o roteiro merece destaque. Pra mim, cabe muito bem como uma despedida do músico que deixou o nosso planeta azul há cinco dias.
Tenho certeza de que Henri Salvador partiu pra outros planos levando o sorriso que ele estampa no final do clipe (aliás, quem lembra do Mário Quintana?): o autêntico sorriso dos que sabem que a alegria é a verdadeira revanche do amor sobre o tempo que passa sem fazer barulho.
Bon voyage, Monsieur Henri!
puxa, fico honrada de receber a visita de um menescal
muito bom o seu blog também, parabéns!
abs, roberta – http://diariodamusica.wordpress.com
Por: rzouain em 17, Fevereiro, 2008
às 9:07 pm
Muito bonito… Bon voyage, Monsieur Henri!
beijo, beijo
Por: leda em 18, Fevereiro, 2008
às 11:05 pm