
Ele nem sabia se o grande painel ainda estava por lá.
Mas o Pessoa, tão lindamente posto em tons de séphia, numa composição que remetia ao cheiro de gasolina de aviação e ao barulho dos grandes motores radiais, era a companhia certa do café expresso, bebericado quase com devoção, entre um vôo e outro.
Imaginava, talvez mais que ninguém, que os dizeres eram todos para ele. E isto lhe tocava o fundo da alma, como o lastro da âncora que repousa no ponto abissal de um mar profundo. Paradoxalmente, era como se tentasse, ou nutrisse uma pontinha de querer, mesmo que em vão, fincar raízes num pedaço de chão qualquer. Até se surpreendia, pois, não raro, sentia mesmo saudades daquilo. A saudade, com leivos de melancolia, de algo, que, na verdade, nunca soubera bem o que era: o dormir e o acordar sob o mesmo teto, todos dias e todas as noites.
Mas ao fim, e inevitavelmente, terminava por comungar com o poema (tão inusitado para o ambiente, mas, ao mesmo tempo, tão próprio, tão descaradamente óbvio e tão seu) de uma cumplicidade não declarada. E, no ponto e contraponto de idas e vindas, pousos, decolagens, diários de bordo, planos de vôo, rostos, malas, filas de check-in, xícaras de café, poeira das estrelas e, quem sabe, o pó de sua própria alma, compreendeu-se, inteiramente, ali:
“Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os restos sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”
Fernando Pessoa
lindo mesmo ver a vida nesse prisma. fica tudo mais fácil.
mas que seria de nós sem o deslocamento?
Por: julialopes em 17, março, 2008
às 10:22 am
ié mesmo! que o digam o motorista e o cobrador! hehehe!
Por: João José Menescal em 23, março, 2008
às 1:22 am