A chuva embala a madrugada insone. O olhar estará, pelas próximas boas horas, dividido ao pé da janela entreaberta: um pouco na beleza caótica da água que se precipita e outro no relógio. Das horas saberia que, daqui a pouco, será o momento de desperta-la para mais uma dose do medicamento. A mãe, no quarto ao lado, padece com suspeita de dengue. Hoje faltou ao trabalho pois era indispensável conduzi-la, pelo braço, de lá pra cá. Afinal, as idas ao hospital foram várias.
A despeito da aflição (a doença é séria e deve ser tratada com cuidado), havia espaço para sentir-se grato. Pelo menos agora poderia retribuir um pouco. Ainda eram vívidas as impressões das incontáveis noites da infância, quando a mãe velava zelosa, ao pé da cama e noite adentro, a doença do filho arteiro.
Hoje o amor que sentia deu recados e fez perguntas. Quem dela cuidará quando for emprestar suas madrugadas às aerovias?
Saboroso é o amor, fruta boa
Coração é o quintal da pessoa
É gostoso o nosso amor
Renovado é o nosso amor
Saboroso é o amor madurado de carinho
É pequeno o nosso amor, tão diário
É imenso o nosso amor, não eterno
É brinquedo o nosso amor, é mistério
Coisa séria mais feliz dessa vida